0.12
- FIXAÇÃO
DE PERFUMES
FIXAÇÃO:
UMA IDÉIA FIXA
Por Jean Luc Morineau*
É
recente a atenção do consumidor com a fixação
dos perfumes. Há muito tempo os primeiros produtos
à disposição do consumidor eram baseados
em águas perfumadas, principalmente com fragrâncias
cítricas e com ervas aromáticas, por isso absolutamente
sem fixação. Dessa época restaram, por
exemplo, a Cologne 4711, Eau Imperial e a colônia Jean
Marie Farina nas quais qualquer pessoa poderá verificar
a total ausência de fixação.
Com
o uso de essências florais e amadeiradas a fixação
do produto começou a melhorar, mas nunca foi assunto
em pauta. Isso até o fim da 2ª Guerra Mundial
(1945). Nessa época, a indústria de perfumaria
americana começou a crescer, mas não se conformavam
com o sucesso dos produtos importados da Europa. As empresas
americanas procuraram compensar a superioridade técnica
dessas marcas de alguma maneira.
A
arma escolhida para isso foi a fixação,
usando muita potência e duração. Os perfumes
de Elizabeth Arden, por exemplo, usavam o seguinte slogan:
meu perfume dura 24 horas. A partir daí
a guerra dos cheiros desvia o caminho da qualidade para potência
e fixação. Disso resultou um aumento brutal
nas porcentagens de aplicação dos fixadores,
que saíram dos tradicionais 12% para porcentagens entre
30% e 35%. Houve também uma maior dosagem de novas
matérias-primas sintéticas de baixa evaporação.
No
seu livro Parlons Parfums, de 1993, editado pela
Editions Mondo, Maité Turonnet faz uma avaliação
dos perfumes de acordo com a realidade do mercado atual, chegando
às seguintes conclusões: a) perfumes com aplicação
da essência concentrada entre 20% e 40% têm uma
vida olfativa na pele de 6 a 10 horas, em média; b)
eau de parfums com 12% a 18% de essência têm vida
olfativa de mais ou menos 5 ou 6 horas; c) eau de toilette
com concentração de 4% a 7% de essência
possui vida olfativa de até 5 horas.
A
autora questiona também alguns produtos americanos
que durariam cerca de 24 horas. Bem, só
poderemos saber se o produto tem fixação ou
não depois de algum tempo. Enfim o que é fixação?
Na realidade é o cheiro que vai ficar em sua pele durante
um tempo indeterminado após a aplicação
e normalmente esse cheiro residual vai ser muito diferente
do perfume que você usou em sua pele algumas horas antes.
Pode-se
explicar de uma maneira muito fácil o porquê
desse fato: um perfume é a mistura de várias
matérias-primas, como folhas, flores, madeiras, raízes,
frutas, etc., cada uma com um cheiro mais ou menos volátil
(volatilização-ato ou efeito de evaporar). Por
exemplo, o limão, a hortelã e outros se evaporam
rapidamente. Já as flores levam algum tempo e as madeiras,
raízes ou resinas demoram algumas horas para desaparecem.
Lógico
que na nossa pele os produtos com evaporação
mais lenta (resinas, madeiras, incenso, baunilha) terão
maior fixação, permanecendo mais tempo na pele.
O ideal seria descobrir um produto milagroso que usado em
um perfume preserve o mesmo em bloco e vá liberando
pouco a pouco o seu cheiro, como se fosse um microencapsulado
grudado em nossa pele.
Talvez
um dia, algum pesquisador descubra essa maravilha, mas por
enquanto devemos nos contentar com o que a natureza nos proporciona,
uma evaporação progressiva, fracionada; primeiro
liberando as notas refrescantes, notas mais voláteis,
depois as notas florais e especiarias de média duração
na pele e finalmente os produtos que dão uma grande
fixação, que são os produtos de evaporação
lenta.
Muitas
vezes nos é perguntado se usamos fixadores nacionais
ou importados, mas este não é o fator importante;
o que se pode explicar sobre a diferença de fixação
entre os produtos nacionais e importados está ligado
a preços e principalmente à concentração
da essência no produto acabado. Na Europa e nos Estados
Unidos se usa freqüentemente de 15% a 20% de produto
ativo (essência ou concentrado) dentro de um perfume
ou uma eau de toilette.
No
Brasil, essa concentração é de 7% a 12%
não só por razões econômicas mas
também para uma melhor adaptação a uma
realidade climática diferente dos países europeus,
nossa temperatura média às vezes acima de 30º
provoca uma evaporação mais rápida e
ao mesmo tempo mais brutal, o que torna o perfume mais forte
e mais enjoativo na hora de usá-lo. Para torná-lo
mais suave, o correto é reduzir a concentração
e em fazendo isto infelizmente reduz-se a fixação.
É
importante e interessante saber que cada vez mais as grandes
marcas internacionais lançam durante o verão
uma versão light, mais suave, menos concentrada,
dos seus principais produtos exatamente pelos motivos expostos
acima. Todos os perfumistas e técnicos, não
só do Brasil como dos países exportadores, quebram
a cabeça para resolver essa difícil questão
que é a fixação. Como fazer aumentar
a proporção de matérias-primas de evaporação
lenta?
Existe
limite para tudo, a beleza e agradabilidade do perfume depende
de um equilíbrio perfeito entre todas as fases do produto,
portanto não podem faltar as notas voláteis
de refrescância, ainda mais num país tão
quente. Vamos então em busca de novas matérias-primas
de evaporação lenta.
Na
perfumaria antiga se usava além de incenso do sândalo,
da baunilha e dos musgos, algumas matérias-primas de
origem animal todas conhecidas pela longividade de seus odores,
sendo a principal dessas matérias-primas de origem
animal o almíscar ou musk, pequeno cervo da região
do Himalaia e do qual era extraída uma glândula
de um cheiro forte, adocicado, agradável e pastoso.
Essa
glândula tem uma grande importância no ciclo de
reprodução desse animal, e como era muito utilizado
pelos povos da Ásia Menor, pelos Egípcios e
Hebreus (muito antes de romanos e povos europeus em geral),
infelizmente este cheiro tão importante provocou a
quase extinção desses pobres animais. Os que
hoje ainda vivem são protegidos por lei, nos restando
portanto o estudo da composição desse produto
milagroso para tentar reconstituí-lo a partir de produtos
sintéticos, então surgiram os almíscars
ou musks sintéticos usados em abundância nos
perfumes de hoje.
O
mesmo fato se deu com o âmbar de cachalote, a civette
extraída de um gato selvagem da África e do
castoréo retirado do castor do Canadá ou da
Sibéria. Enfim, salvos os animais pelo progresso da
ciência principalmente da química temos hoje
um número considerável de matérias-primas
de evaporação lenta para ajudar os bálsamos,
madeiras e raízes a prolongar a vida dos perfumes na
pele dos consumidores do mundo inteiro.
Mesmo
assim existem milhares de consumidores alegando que o perfume
fica por pouco tempo em suas peles. Analisando esse problema,
descobrimos duas explicações para essa reclamação.
Na maioria dos casos essa reclamação é
exagerada, se pedirmos ao consumidor para se perfumar e mandarmos
um pesquisador aparecer de hora em hora para verificar a permanência
ou não do cheiro na pele, iremos constatar que o odor
persiste por muitas horas sem que o consumidor perceba. Para
explicar isso, teremos que analisar a anatomia do olfato.
Perceber
um cheiro diferente é reagir a um impulso cerebral
nos alertando de uma mudança olfativa em nosso ambiente,
que pode significar para nós a presença de um
perigo ou de um acontecimento importante para nosso bem-estar.
A parte do cérebro responsável pelo olfato é
o rinencéfalo (cérebro do cheiro), que é
a parte mais animal do cérebro humano; ela reage instantaneamente
aos impulsos olfativos sem controle de análise do pensamento
e da inteligência. Um cheiro de comida provoca uma sensação
de fome, mesmo que tenhamos acabado de almoçar, provocando
uma salivação incontrolada em um primeiro momento,
da mesma forma um cheiro de perigo provoca um pânico
imediato, um cheiro agradável provoca prazer físico.
Mas
essas reações são instintivas e de pouca
duração, rapidamente o cérebro inteligente
retoma o controle e por isso corta depois de um tempo a percepção
do olfato. Comprovado que não existe perigo ou outra
coisa e que o cheiro que sentimos é inofensivo, em
umas duas horas no máximo a pessoa deixa de perceber
esse cheiro, que de estranho virou normal no ambiente. Da
mesma forma o consumidor de um perfume acha que o mesmo desapareceu.
Somente uma outra pessoa vindo de outro ambiente pode definir
quanto tempo o perfume vai persistir na pele.
Essa
reação explica porque algumas pessoas se perfumam
várias vezes sem necessidade e acabam exagerando na
quantidade, tornando o perfume insuportável, deixando
assim de ser atrativo para ser repulsivo. Mesmo pessoas esclarecidas
reclamam às vezes da falta de fixação
do perfume até em relação a perfumes
importados. Devemos reconhecer que existe uma certa razão
para isso. Cada tipo de pele reage ao perfume de um modo diferente,
em algumas o cheiro parece literalmente grudar, e em outras
desaparecer em pouco tempo.
O
mesmo perfume pode persistir de 14 a 15 horas em uma pessoa
e 2 ou 3 horas em outra. Explicações são
muitas: acidez da pele, oleosidade, doenças, problemas
de origens hormonais, etc. A química da pele é
uma realidade extremamente complicada que médicos dermatologistas
vão demorar para conhecer.
Algumas
experiências comprovadas foram feitas com pessoas desesperadas
por não encontrar nenhum perfume compatível
com sua pele e que chegaram a usar essência pura sem
nenhum diluente. Depois de uma ou duas horas o cheiro tinha
desaparecido. Para casos como estes podemos encontrar soluções
aleatórias como por exemplo perfumar o cabelo, pois
é possível que o perfume fixe melhor, ou em
último caso perfumar a roupa, pois a química
desta é muito mais fácil de se entender, faça
alguns testes deste tipo que irá encontrar resultados
notáveis.
Vamos
resumir por fim tudo aqui exposto:
1)
No perfume, a fixação não é sinônimo
de qualidade. Existem perfumes maravilhosos que não
são muito duradouros e perfumes de longa duração
pouco agradáveis, às vezes é melhor uma
satisfação intensa em poucas horas do que 24
horas de que algo extremamente enjoativo.
2)
Nunca esquecer que outra pessoa tem uma percepção
de seu cheiro muito mais intensa
e sensível do que você mesmo.
3)
A finalidade de seu perfume é dupla: deixar você
feliz e seguro de sua beleza olfativa e atrair positivamente
a atração de outras pessoas para você.
Por isso é muito importante você escolher com
cuidado o seu perfume e a dosagem certa
a ser aplicada, dependendo sempre da estação
do ano, período do dia, e do lugar onde vai estar.
Finalmente nunca esquecer que é muito mais fácil
aumentar ou renovar o seu
perfume, do que retirá-lo se colocado em excesso.
Dica
Importante
Sempre
guardar os perfumes em suas gavetas de roupas, pois o perfume
mesmo fechado evapora e sem perceber sua roupa pouco a pouco
terá o perfume de sua preferência como característica,
além de conservar melhor o seu produto.
[*Jean
Luc Morineau é perfumista da LAteliermorineau@latelierparfums.com.br]