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Sou
criatura da noite. É nela que eu me encontro. Sou noctívaga. A noite me recebe como uma velha conhecida. O silêncio me afaga e É na noite alta que me sinto menos só. Sou de hábitos noturnos, De caminhar em silêncio distinguindo sons, De andar na ponta dos pés Como bailarina ensaiando novos passos, De deslizar por entre as sombras E olhar o mundo adormecido Sem necessidade de despertá-lo, De velar o sono de quem dorme E ouvir o sonho que se mostrar no ressonar. |
| Na
noite sorrio leve, falo baixinho, murmuro, Penso alto sem acordar ninguém. É à noite que sonho acordada. Bebo café, água, vinho... Tranqüila e serena. Não há solidão. É durante a noite que me entrego melhor e mais, que me dou inteira, sem sono. Na noite eu me renovo e me preparo para dormir quando o dia chegar. É também durante a noite que sou mais lúcida. É que não sei pensar na claridade do dia. É que não sei ponderar sob as luzes. Na luz difusa da noite, Vejo melhor meus pensamentos, À meia luz meus olhos não se ferem. Sou da noite e, só nela não sinto solidão. |
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Até as dores, físicas e emocionais,
tão parte de mim e solidárias
com essa minha escuridão límpida e clara,
esperam anoitecer para me abraçar.
Posso então eu senti-las
com a privacidade que só a noite permite.
Sou criatura do anoitecer.
Sou criatura de um mundo distante.
Sou criatura translúcida.
Para me ver é preciso olhar no escuro. Tatear.
Fechar os olhos e ir vendo devagar...
Para me ver é preciso aprender a enxergar na escuridão.
Morro ao amanhecer e renasço ao entardecer.
Acendem-se luzes da cidade e na happy hour,
em goles lentos, bebo a noite, até que ela,
linda, me reconheça e, me trague
e me faça luz, leve nuança lunar...
E meu reflexo surge belo e frágil
como nunca o será à luz do dia...
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À
todas as criaturas que, como eu,
amam a noite e despertam quando o mundo começa a adormecer!! |
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