Canta, poesia! Ergue tua voz em mim.
Tua canção de estrelas, sem fim,
Desnuda sobre os amantes;
Teu canto é dos errantes


Canta, poesia! Canta tua canção nua
Na noite parada - estática a lua.
Sobre o silêncio profundo;
Teu canto é o mundo

Canta, poesia! Canta a canção eterna
Do amor que no peito hiberna
Da alma cativa em segredo;
Teu canto é sem medo


Canta, poesia! Canta uma ária trágica.
Risca o céu em uma nota mágica
Que um raio seja o teu guia;
Teu canto é luz do dia

Canta, poesia! Canta uma ode ao amor.
Beija o sol, acorda-o do torpor...
E foge, em suspiros dourados.
Teu canto é dos namorados

Canta, poesia! Canta a canção da dor.
Não deixes esquecida a pálida flor
Deitada na tumba, sob lágrimas;
Tu és todas as páginas

Canta, poesia! Canta a canção da morte,
Despetala os dias e a estrela-norte
Durmam as mãos em tua guarda;
Tu és a que me retarda

Canta, poesia! Canta hoje, sem demora
Dormem no infinito meus olhos, agora
Descem brumas, apaguei a luz;
Tu és a mão que me conduz.

[Lizete Abrahão]